Allen Porto
Allen Porto

@allenporto

59 Tweets 484 reads Mar 15, 2022
O MUNDO CONTRA JOHN MACARTHUR (thread longa)
As redes sociais vivem de escândalos. Em grande medida, é o que mantém as pessoas clicando, curtindo, compartilhando, comentando e… providenciando a atenção necessária para que os anúncios sejam veiculados e a monetização aconteça.
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A lógica interna das redes é a de hipérboles e exageros, urgência e imediatismo, pressa e prontidão. Cautela, paciência e tons amenos não são bem-vindos… costumam ficar de escanteio, ou, pior: quem assim procede rapidamente é rotulado de “passapanista” ou algo do tipo.
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Recentemente, um novo escândalo movimentou as discussões nas redes. Uma jornalista norte-americana noticiou que a igreja do pastor John MacArthur, nos Estados Unidos, protegeu um abusador e oprimiu a vítima, a ponto de envergonhá-la publicamente e excluí-la da comunhão da igreja+
por sua decisão de não permanecer casada. O abusador teve a sua índole confirmada na justiça pública, recebendo uma condenação por seus crimes, que envolveram não apenas abuso psicológico, mas também físico e sexual.+
A jornalista cita os relatos da vítima e menciona os nomes dos líderes envolvidos no processo de disciplna eclesiástica - outros pastores da Grce Community Church. Ao final do processo, o próprio John MacArthur comunicou publicamente à igreja o pecado da vítima e a sua expulsão.+
O caso é de 20 anos atrás - 2002.
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Como era de se esperar, o caso gerou comoção nas redes. Prontamente, os partidos se formaram para condenar ou defender John MacArthur. +
Os defensores destacaram a má reputação da jornalista, que já cometeu outros erros de reportagem e escolheu como foco de trabalho a denúncia de líderes. +
Também destacaram a coincidência do momento escolhido para soltar uma notícia de 20 anos atrás - o período da Shepherds’ Conference, conferência da igreja, seminário e universidade liderados por John MacArthur.
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Os acusadores chamaram John MacArthur de “o novo Caio Fábio”, afirmaram que ele “não acredita no que ensina”, definiram-no como “otário” e sugeriram que ele não deva mais ser tratado como ministro do evangelho.+
Alguns passaram a contar várias histórias de mulheres abusadas em igrejas e outros lembraram das posturas de MacArthur na pandemia e em outros casos. +
Falaram que estavam aguardando surgir o podcast “the rise and fall of John MacArthur” (a ascensão e queda de John MacArthur), em referência a um podcast recente que contou a tragédia da queda do pastor Mark Driscoll.+
Alguns sugeriram que o problema é o fundamentalismo desse pastor, e outros colocaram a culpa no complementarismo. A decisão, no entanto, era praticamente unânime: dê-nos a cabeça de John MacArthur.
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Junto a isso — era de se esperar —, surgiu a cobrança para que líderes diversos se posicionassem a respeito da questão.+
“Tem muita gente relativizando”, “tem muita gente comentando nos grupos, mas calada nas redes”, “tem gente que comenta sobre tudo e agora está em silêncio” — foram as descrições em tom de cobrança.
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Tudo isso no curto espaço de uns 3 ou 4 dias. As redes não aceitam julgamentos lentos.
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Há tantos aspectos a considerar nesse caso, que um post desse jamais conseguiria dar conta do trabalho. Talvez eu escreva outra coisa sobre isso, mas não posso garantir, pois isso tudo demanda um tempo e energia que podem ser melhor empregados em outras atividades +
mais produtivas do que viver de comentar polêmicas. Mas já que comecei, seguimos nesse post.
Primeiramente, permita-me algumas considerações pessoais:
Conheci John MacArthur no ano em que me tornei reformado. Curiosamente, o exato ano de 2002. Lembro como se fosse hoje de ir para a escola de ônibus - eu cursava o terceiro ano do ensino médio - e, no trajeto, lia “Com vergonha do evangelho”.+
Sou profundamente grato a Deus por ter usado MacArthur para abrir os meus olhos para temas importantes, e para me encaminhar a conhecer e ler Charles Spurgeon.+
Mas, ao longo dos anos, praticamente deixei de ler MacArthur. Ele permaneceu para mim como uma figura respeitável, mas eu não aprecio, em grande medida, o tom mais combativo de muitas declarações. Meus estudos e ênfases também me encaminharam em outras direções. +
Desse modo, posso dizer que minhas paixões quanto a JMac não são inflamadas: nem para amá-lo, nem para odiá-lo. Ele é um pastor como todos os outros, com posturas que eu aprecio e que eu rejeito.+
Talvez isso me permita olhar para a situação sem buscar apressadamente um veredito. A propósito: eu não tenho um veredito. Não acho que uma matéria - mesmo com seus documentos e decisões judiciais - seja tudo o que podemos considerar. Apenas quero pontuar alguns aspectos breves:+
1 Daquilo que temos acesso, podemos afirmar que a liderança da igreja errou. Uma vítima foi oprimida e tratada como culpada, enquanto um abusador saiu como justo e piedoso na igreja. A condenação judicial tornou patente que ele era o problema fundamental. +
Não é possível minimizar algo tão problmático. Deus nos ordena a cuidar dos vulneráveis. São vários os relatos no Antigo e Novo Testamento em que Deus revela odiar a opressão e encaminha a sua igrja para cuidar dos oprimidos. Devemos amar o que Deus ama e odiar o que Deus odeia.+
2 É verdade que há idolatria de líderes, e que pode haver pessoas idolatrando JMac. O nosso coração pecador, aliado à cultura de tratar pastores como celebridades, gera o ambiente perfeito para que líderes cristãos sejam idolatrados. +
Nesse contexto, aqueles que os adoram podem, por um lado, fechar os olhos para todos os erros e tratar o líder como infalível, ou — no outro extremo — experimentar uma decepção tão grande ao perceber um erro que passam a viver como antagonistas. +
O coração e o olhar estão fora de lugar.
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3 A reação enérgica dos acusadores a JMac esconde algo além desse episódio. Até onde consigo perceber, o pastor em evidência coleciona desafetos em diferentes aspectos, que se uniram na execração pública:
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3.1 Defensores da psicologia antagonizam MacArthur por causa do aconselhamento bíblico.
3.2 Junto aos defensores da psicologia, cristãos que defendem o teísmo evolucionário antagonizam JMac porque ele é claramente contrário a essa posição.
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3.3 Gente da ciência e antibolsonaro se ressentiu da postura de MacArthur, chamando-o de negacionista.
3.4 Carismáticos se ressentem de JMac por causa do “Caos carismático”. Estão juntos nessa corrente.
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3.5 Igualitaristas e complementaridade mais soft aproveitam o momento para criticar o complementarismo de MacArthur.
3.6 Pessoas ressentidas com pecados e abusos de outros líderes revivem a cena e despejam sua ira no pastor.
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3.7 Muitos webcrentes se ressentem dos reformados em geral, e essa é uma ocasião para confirmar suas suspeitas.
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Antagonismos anteriores eram a pólvora que facilmente pegou fogo no momento presente. E os diversos grupos se inflamaram mutuamente, unidos em uma mesma causa.
Por isso chamei o post de “O mundo contra John MacArthur”.
4 É claro que nem todos os críticos tinham algum ressentimento anterior ou uma agenda particular. Entre os críticos havia pessoas querendo fazer uma crítica mais honesta.
5 Também entendo q a reação ao pastor veio forte porque suas declarações são fortes. Parte do antagonismo que JMac possui, vem d afirmações em tom combativo e direto. Embora n seja o ensino bíblico (“vence o mal com o bem”), n é difícil entender q ele receberia respostas assim.+
6 As condenações virtuais parecem não entender aspectos básicos da vida pastoral e do governo de uma igreja, que podem ser lembrados aqui:
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6.1 Pastores cometem erros. Pastores tomam decisões erradas mais frequentemente do que gostariam. Esses erros envolvem pregação, aconselhamento, disciplina, relacionamentos, dentre tantas outras áreas da vida da igreja. +
Colocar o pastor na posição de “tudo ou nada” é anunciar a falência do ministério pastoral.+
6.2 O ministério colegiado existe para o compartilhamento de responsabilidades. Pelo relato da jornalista, outros pastores e líderes trataram o caso do abusador e sua esposa. +
John MacArthur não esteve diretamente envolvido até o momento final, em que os passos finais de excomunhão foram anunciados. Em igrejas maiores isso parece ser mais frequente: diferentes pastores e líderes formam comissões ou são designados para tratar de casos específicos, +
e apenas reportam ao conselho ou ao grupo de líderes a situação. Diante dos seus relatórios, o conselho dá prosseguimento aos passos que seguem. +
Nesse caso, diante dos relatórios dos líderes diretamente envolvidos, a liderança da Grace Church entendeu que o problema era de uma esposa insubmissa e não arrependida, e assim a excomungou. +
Como já afirmado acima, isso foi um erro. Mas é diferente de afirmar que John MacArthur é um homem perverso que defendeu um pedófilo e oprimiu uma mulher vulnerável, como foi sugerido. +
Certamente há responsabilidade dele como pastor titular, mas isso é algo diferente de julgar suas motivações e pintá-lo como um homem perverso.+
6.3 Manipuladores enganam pessoas e grupos inteiros. Para muitos nas redes é impossível conceber a ideia de que uma igreja tenha ficado ao lado de um abusador, mas talvez lhes falte um pouco mais de senso de realidade ou experiência de vida. Manipuladores manipulam. +
Ao que parece, já havia uma pré-disposição de confiança no abusador, que ensinava música em uma das instituições da igreja.
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Junte a pré-disposição com a manipulação e será mais fácil entender como pastores e conselhos inteiros podem defender a pessoa errada e realizar coisas vergonhosas. +
É claro que não deveria acontecer; mas acontece. E não acontece apenas na Grace Church. Acontece na minha e na sua igreja. Pastores são enganados por bastante tempo, e muitos tomarão decisões erradas por serem manipulados.+
Um senso de realidade poderia nos fazer analisar a situação com menos paixão e mais sobriedade, e avaliar as nossas próprias motivações e exigências, para conferir se são adequadas e justas.
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7 Não ouvimos a liderança da Grace Church. Curiosamente, o mundo tem o padrão de ampla defesa e direito ao contraditório, mas no tribunal cristão das redes sociais você é condenado sem ser ouvido. +
Pelo contrário: uma acusação adicional foi levantada: JMac não está arrependido — como poderíamos saber? A igreja não se pronunciou, JMac não se pronunciou, e tudo o que temos é uma parte da história.+
O juízo sem a disposição de ouvir e entender aponta para a nossa imaturidade.
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8 Influenciadores cristãos fizeram o papel vergonhoso de inflamar os jovens a assumir a dinâmica do tribunal das redes, em vez de estimularem o equilíbrio e a sabedoria no modo de considerar e agir. Estabelecem uma regra de juízo q se volta contra toda a igreja, e contra eles.+
9 Há um triste senso de justiçamento nesses cancelamentos. A desconfiança quanto ao poder das autoridades de julgar; a pressa em que a “justiça” seja feita; e a agitação para que o meu braço seja o agente da justiça me movem na direção do cancelamento. +
Por isso, que não se considere atentamente, que não se respeite processos, que não se aguarde os ambientes devidos de disciplina eclesiástica: nós executaremos justiça agora. +
Mas o justiçamento das redes jamais produzirá os frutos de arrependimento da disciplina no contexto da igreja local. Apenas funcionará como execração pública.+
Falei que talvez escrevesse mais, e como já escrevi esse tanto, não voltarei ao assunto. Que Deus nos ajude nesses conflitos.
@NormaBlog @doisdedosdeteo É claro que a vida é mais importante. Alguém discorda disso? Mas, analisando um caso de 20 anos atrás, nós podemos ser mais sábios e cautelosos do que foi feito por aqui.

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