Hoje é o Dia Nacional da Cultura, data criada pela Lei 5.579, de 1970, sancionada pelo General Garrastazu Médici. O motivo: nascimento de Ruy Barbosa. Jurista de renome, adepto de um elitismo cultural explícito, inimigo mortal da música e da dança popular brasileira. (+)
É famoso o episódio da noite de 26/10/1914. Durante um sarau realizado no Palácio do Catete, Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, quebrou o protocolo e no meio de um programa composto de peças eruditas, tocou no violão o Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. (+)
O fato, noticiado pela imprensa, gerou escândalo. O violão era considerado vulgar, associado à malandragem. Tocado por uma mulher, executando uma música composta por outra mulher, Chiquinha, neta de negra escravizada (negritude, aliás, silenciada). Imaginem a repercussão. (+)
O chamado "escândalo do Corta-Jaca" gerou, dentre outras coisas, um discurso apoplético de Ruy Barbosa no Senado Federal. Cito: "Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa da recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade, (+)
aqueles que deviam dar ao pais o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, Sr. Presidente? (+)
A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras de música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, (+)
que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”(5. Diário do Congresso Nacional, 8/11/1914, p. 2789.) Em suma: para Ruy, samba, batuque, cateretê, corta-jaca... tudo coisa de gente "baixa, chula e grosseira". (+).
No carnaval de 1981, a União da Ilha desfilou com o enredo "1910, burro na cabeça". O ótimo samba, em um trecho, dá aquela sacaneada no jurista renomado: Ruy Barboseava / No senado / Dizendo ser grosseira / A música popular brasileira". Para concluir: (+)
Não se constrói futuro sem a disputa pelo passado. O Dia Nacional da Cultura é ideal para pensarmos o que é exatamente cultura. A data escolhida - nascimento de um homem com visão absolutamente elitista e excludente do que seria a cultura - abre portas para isso. (+)
Por mim, o Dia Nacional da Cultura seria o 26 de outubro, data em que Nair de Teffé tocou o Corta-Jaca. Como, entretanto, a ditadura militar estabeleceu que o homenageado é Ruy Barbosa, não resisto: cantem e dancem samba, frevo, maracatu, coco, toada de boi, chula, cateretê, (+)
funk, fandango, forró. Façam embolada, rap, slam, sonata, soneto, cordel. Joguem bola, comam feijoada, maniçoba, caruru. Batam tambor. Hoje! A Cultura é a possibilidade de invenção do Brasil plural. Ruy Barbosa merece saber, em pleno aniversário, que essa ele perdeu.
Para referências e indicação de fontes sobre o corta-Jaca, o samba, o preconceito, etc. indico o Dicionário da História Social do Samba, que escrevi com Nei Lopes; e o Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira.
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