Pensar a História
Pensar a História

@historia_pensar

28 Tweets 105 reads Feb 01, 2023
Imagine um jurista pregando que paulistas deveriam eliminar os nordestinos da mesma maneira que Hitler eliminava judeus na Alemanha nazista. Imagine agora tal figura sendo exaltada como herói e homenageada com monumentos. Absurdo? Pois é exatamente isso o que ocorre em SP
1/26
Localizado no Parque do Ibirapuera, em frente ao Obelisco-Mausoléu que guarda os restos mortais dos combatentes mortos na insurreição de 1932, encontra-se o imponente "Monumento a Ibrahim Nobre", esculpido em bronze por Luis Morrone e inaugurado em 1972.
2/26
O jurista Ibrahim de Almeida Nobre foi um dos personagens mais destacados da política de SP nos anos 30. Após atuar como subprocurador da justiça, assumiu a função de promotor público. Foi como opositor da Revolução de 1930, entretanto, que Ibrahim se tornou conhecido.
3/26
Alçado à presidência contra a vontade das oligarquias paulistas na Revolução de 1930, Getúlio Vargas instituiu um processo de centralização e modernização da estrutura produtiva. Os estados tiveram sua autonomia limitada e foram proibidos de contrair empréstimos externos.
4/26
Em SP, o governador Heitor Penteado foi deposto e substituído pelo pernambucano João Alberto Lins de Barros, interventor nomeado por Vargas. Ligado ao movimento tenentista, João Alberto reabilitou os ex-combatentes da Revolta Paulista de 1924,...
5/26
...legalizou a atuação do Partido Comunista e aproximou-se das organizações sindicais, instituindo novas leis trabalhistas. A nomeação de João Alberto enfureceu a burguesia de SP, que passou a se referir ao interventor com expressões como "forasteiro" e "plebeu nordestino".
6/26
Coube a Ibrahim Nobre o papel de porta-voz da insatisfação da burguesia paulista. Orador talentoso, Ibrahim fez discursos inflamados e dramáticos, exortando o povo paulista a lutar contra Getúlio Vargas e a favor da restauração da velha ordem oligárquica.
7/26
Em 1931, Ibrahim publicou o poema-manifesto "Minha Terra, Minha Pobre Terra", em que se referia a São Paulo como uma terra conquistada, "humilhada, invadida, desfeita e lesada" pela Revolução de 1930.
8/26
Tão significativa foi sua atuação na propaganda anti-Vargas que Ibrahim receberia o epíteto de "Tribuno da Revolução de 1932". Deflagrado o levante armado para derrubar Vargas, Ibrahim seguiu contribuindo com a produção intelectual do Movimento Constitucionalista.
9/26
Além de exortar o apoio à guerra civil, Ibrahim constrangia os que se recusavam a tomar parte do levante, diferenciando os "bons" dos "maus paulistas", rebaixados por si como "vermes", "fauna da nossa sepultura que irá alimentar-se de nosso cadáver".
10/26
Ibrahim atuou também no campo de batalha, liderando seu próprio batalhão (batizado com seu nome) em frentes no interior. A insurreição paulista foi derrotada após três meses de conflito, forçando Ibrahim a se exilar, a princípio em Portugal e posteriormente no Uruguai.
11/26
Mesmo após a assinatura do armistício, Ibrahim seguiu incitando os paulistas a retomarem a luta contra as tropas federais. A imunidade garantida pelo exílio encorajou o jurista a externar de forma cada vez mais explícita seu reacionarismo.
12/26
Imerso em um anticomunismo delirante, afirmava que a luta travada por São Paulo contra Vargas era uma "batalha entre Jesus e Lenin". Em 1933, entusiasmou-se com a ascensão de Adolf Hitler ao cargo de chanceler na Alemanha.
13/26
Logo passou a recomendar aos paulistas que aplicassem em São Paulo a mesma "profilaxia anti-judaica" que Hitler havia instituído na Europa, mas não contra os judeus — o alvo de Ibrahim Nobre eram os "indivíduos que joanalbertisaram o sangue paulista".
14/26
O neologismo "joanalbertisar" é uma referência a João Alberto, o interventor nordestino que Vargas impôs a São Paulo. Em outras palavras, Ibrahim Nobre recomendava abertamente como solução aos paulistas a eliminação dos "Joões Albertos", a eliminação dos nordestinos.
15/26
Ibrahim Nobre retornou ao Brasil em 1934, após a concessão da anistia. Retomou sua atuação no reacionário Partido Republicano Paulista e obteve o cargo de delegado, respondendo a inúmeras acusações de abuso de poder e tortura, incluindo o uso de chibatadas contra operários
16/26
Malgrado as denúncias, permaneceu chancelado como "herói" da burguesia paulista. Foi nomeado professor na Faculdade de Direito da USP e indicado para a Academia Paulista de Letras. Após seu falecimento, Ibrahim Nobre foi objeto de inúmeras homenagens.
17/26
Seus restos mortais foram sepultados no Obelisco-Mausoléu de 1932 e uma comissão de advogados, promotores e juízes financiou a construção de seu monumento no Ibirapuera. Há um busto em sua memória na FD-USP e logradouros e escolas batizados com seu nome.
18/26
Ibrahim não foi o único intelectual do Movimento Constitucionalista a incitar o ódio aos nordestinos. Paulo Duarte, um dos fundadores da USP, descreveu o interventor João Alberto como "um negro de Dacar (...) convencido de que ocupa a alta posição de cidadão da França".
19/26
...traçando um paralelo entre um pernambucano governar SP a um senegalês se destacar na Europa. Posteriormente, em "Palmares pelo Avesso", lamentaria a derrota de SP em 32 como uma inversão do conflito no Quilombo de Palmares, com os "negros vencendo os brancos".
20/26
Assim como Ibrahim, Paulo Duarte recebeu inúmeras honrarias em vida e "post mortem", incluindo o Prêmio Jabuti, maior galardão literário do país. Empresta seu nome a uma das maiores bibliotecas da rede pública de São Paulo.
21/26
Alfredo Ellis Júnior, outro professor da USP ligado ao Movimento Constitucionalista, tentou encontrar respaldo pseudocientífico para sua xenofobia, identificando no "tipo nordestino" um "amongolamento clássico" que o diferenciaria do "dolico-louro do Rio Grande do Sul..."
22/26
"...ou de um bachy-moreno de São Paulo". A característica física que associava ao "amongolamento nordestino" era a "platicefalia" indicativa de uma origem não-europeia, o que, em suas palavras, "os sulinos chamam, sem sentido pejorativo, de cabeça-chata".
23/26
Assim, os intelectuais ligados ao Movimento Constitucionalista de 1932 buscaram referências na eugenia e no nazismo para adaptar a base do pensamento xenofóbico e supremacista, em conformidade com narrativa romantizada,...
24/26
...cultuada pela elite paulista, que busca evidenciar a "excepcionalidade" do povo de São Paulo — evocando a ideia de que a burguesia paulista seria o grupo habilitado a gerir o país, a "locomotiva que arrasta vagões obsoletos, velhos e atrasados".
25/26
Não por acaso, tais ideias ainda subsistem no imaginário paulista, legitimando a discriminação de nordestinos e servindo de referência aos grupos reacionários, de separatistas a neonazistas, passando por fetichistas de fardas e apologistas da ditadura militar.
26/26
Pra se aprofundar no assunto, recomendo ler "O Levante de 1932: Fatores econômicos e políticos", de Francisco Quartim de Moraes. Aliás, leiam o que puderem de Quartim de Moraes sobre 32. São os melhores textos.
teses.usp.br
Também recomendo "A Cor da Modernidade - A Branquitude e a Formação da Identidade Paulista", livro de Barbara Weinstein
google.com.br

Loading suggestions...