Pensar a História
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@historia_pensar

25 Tweets 68 reads Feb 01, 2023
Há 127 anos, em 17/11/1895, nascia o psiquiatra paraibano Osório César. Pioneiro na adoção de métodos humanizados de tratamento psiquiátrico, fundou a Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri e pressionou pelo fim de práticas agressivas como a lobotomia e o eletrochoque.
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Osório César nasceu em João Pessoa, em uma família de músicos. Interessou-se pela arte desde a infância, dedicando-se a estudar violino. Com 17 anos, mudou-se para São Paulo, onde cursou a Faculdade de Odontologia e se manteve ministrando aulas de violino.
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Graduou-se 4 anos depois, mas não chegou a exercer a função. Matriculou-se logo em seguida no curso de medicina da Universidade Livre. A interrupção do curso o forçou a se transferir para o RJ, dando continuidade aos estudos na Faculdade de Medicina da Praia Vermelha.
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Formou-se nessa instituição em 1925, especializando-se como anatomopatologista e psiquiatra. Já graduado, Osório começou a trabalhar no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, gigantesca colônia psiquiátrica localizada em Franco da Rocha, nos arredores de São Paulo.
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A instituição abrigava não apenas pessoas com transtornos mentais, mas também servia ao confinamento de indivíduos tidos como "indesejáveis" pela sociedade — de ex-escravos e imigrantes em situação de miséria até homossexuais e prostitutas.
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Influenciada por ideias eugênicas e preconceitos, a abordagem clínica beirava a tortura. Os internos eram submetidos a péssimas condições sanitárias e rotinas de maus-tratos. Osório pressionou pela humanização da instituição, buscando torná-la um espaço mais condigno.
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Ao mesmo tempo, aprofundou-se nos estudos sobre arte e psicopatologia, na busca por terapias menos invasivas. Em 1925, publicou "A Arte Primitiva nos Alienados". Dois anos depois, escreveu "Contribuição ao Estudo do Simbolismo Místico nos Alienados".
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Em 1929, publicou o livro "A Expressão Artística nos Alienados - Contribuição para o Estudo dos Símbolos na Arte", sua obra mais relevante. O texto teve significativo impacto internacional, chegando a ser resenhado e comentado por Sigmund Freud, pai da psicanálise.
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Nos anos 30, Osório fez uma série de viagens à Europa, a fim de aprofundar seus estudos. Trabalhou no Hospital da Salpêtrière ao lado de Henri Piéron e outros discípulos de Carl Gustav Jung, o fundador da psicologia analítica.
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Osório também atuou como jornalista e crítico de arte, frequentando intensamente o meio artístico paulistano. Fez amizade com Mário de Andrade, Flávio de Carvalho, Sérgio Milliet e Aldo Bonadei, e organizou as reuniões do grupo Cultura Musical em sua residência.
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É desse período que data o início do seu relacionamento amoroso com a pintora Tarsila do Amaral. Filiado ao Partido Comunista do Brasil (antigo PCB), Osório introduziu Tarsila nos estudos sobre o comunismo e a convenceu a acompanhá-lo em uma viagem à União Soviética.
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A viagem pela União Soviética teve impacto profundo na produção intelectual do casal, mas também alarmou as autoridades brasileiras. Ao retornarem ao Brasil, Osório e Tarsila foram presos pela polícia política de Getúlio Vargas, sob a acusação de subversão.
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Libertado, Osório escreveu uma série de textos em defesa do socialismo, incluindo "O que é o Estado Proletário" e "Onde o Proletariado Dirige", publicados em 1933. No ano seguinte, o psiquiatra escreveu "A Proteção da Saúde Pública na União Soviética".
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Osório retornou à União Soviética em 1935, para participar do XV Congresso Internacional de Fisiologia, sediado em Leningrado e Moscou e presidido por Ivan Pavlov. Na volta ao Brasil, foi novamente detido.
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No mês seguinte, o psiquiatra voltou a ser preso, dessa vez acusado de conspirar em favor do Levante Comunista de 1935. Permaneceu encarcerado no Presídio Maria Zélia por quase dois anos, sendo absolvido ao término do processo.
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Malgrado a perseguição política, Osório obteve autorização para retomar suas atividades no Juqueri. Ocupou-se então de abolir a lobotomia, o eletrochoque e outros tratamentos arcaicos, privilegiando procedimentos menos invasivos.
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Deu atenção especial para atividades que visavam estimular recursos físicos, cognitivos e emocionais, sobretudo a terapia ocupacional. A prática psicanalítica foi consolidada após a chegada da doutora Adelheid Koch.
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Em 1938, por iniciativa de Osório, foi criada a Seção de Artes Plásticas. Em 1949, a seção seria convertida na Escola Livre de Artes Plásticas do Juqueri, onde os internos tinham acesso às oficinas de desenho, pintura, escultura e cerâmica, bem como sessões musicais.
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A iniciativa provou-se acertada, resultando em avanços significativos no tratamento dos pacientes, com maior controle de sintomas, melhoria da autoestima, diminuição do estresse e das sequelas de experiências traumáticas.
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Visando difundir a produção dos internos do Juqueri, Osório organizou mais de 50 exposições com desenhos e pinturas dos pacientes, a maioria sediada no Clubinho de Arte de São Paulo. Duas grandes mostras com as obras do Juqueri também foram sediadas pelo MASP.
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Em 1950, as obras integraram a Exposição Mundial de Arte Psicopatológica, organizada pela Sociedade de Psicologia de Paris, e foram objeto de um importante ciclo de palestras.
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A atuação de Osório foi fundamental para consolidar a arteterapia e valorizar a expressão dos pacientes-artistas, influenciando a ação de outros psiquiatras, nomeadamente Nise da Silveira, que coordenou um trabalho semelhante no Rio de Janeiro.
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Osório publicou outros livros sobre a arte dos pacientes psiquiátricos, incluindo "Misticismo e Loucura", premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1948.
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Seguiu trabalhando no Juqueri até 1964, quando se aposentou por pressão da ditadura militar. Em 1974, doou sua coleção de desenhos de pacientes-artistas para o MASP. Faleceu em Franco da Rocha em 3 de dezembro de 1979.
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Em 1984, as obras remanescentes dos internos do Juqueri foram reunidas por Maria Heloísa de Toledo Ferraz e serviram de base para a criação do Museu Osório César, instalado nas dependências do hospital.
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