Não há absolutamente nenhum registro historiográfico, nenhum documento coevo, nenhuma fonte primária que corrobore essa narrativa de que "Zumbi tinha escravos". Nenhum. Zero. É bizarro o espaço que se deu pra esse nível de revisionismo descarado na imprensa mainstream.
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Esse revisionismo é um fenômeno recente, registrado nas últimas duas décadas, como uma reação conservadora ao avanço de políticas focadas na população negra, em especial após a implementação das cotas raciais nas universidades públicas brasileiras.
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Esse processo teve início em 2001, com o livro "Cidadania no Brasil", de José Murilo de Carvalho. A essa obra, seguiu-se "Divisões Perigosas" (2007), de Ricardo Ventura Santos, compilando textos contrários à promoção de políticas públicas baseadas em critérios raciais.
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O mais popular promotor desse revisionismo e principal difusor da teoria do Zumbi escravocrata, entretanto, é o livro "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil", escrito por um jornalista de extrema-direita chamado Leandro Narloch.
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Em geral, essas alegações são falsas, especulativas e/ou anacrônicas. Em "Cidadania no Brasil", Carvalho defende a existência de escravos em Palmares com base na mera suposição de que os quilombolas provavelmente imitavam a estrutura socioeconômica do Brasil escravagista.
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Carvalho, entretanto, não fundamenta sua alegação com base em evidências. Apenas palpita que os quilombolas copiavam os hábitos dos colonizadores. Mas há evidências numerosas de que os quilombolas tinham uma organização política e econômica totalmente dissonante da colônia.
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Já Ricardo Ventura Santos e Leandro Narloch utilizaram-se da mesma fonte para afirmar que Zumbi seria um escravizador - um livro escrito em 1947 por Edison Carneiro, chamado "O Quilombo dos Palmares".
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Em um trecho dessa obra, Carneiro afirma que "os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos".
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O livro de Carneiro não se refere a Zumbi, nem o cita. Refere-se, na verdade, ao próprio Quilombo dos Palmares. Seria impossível que Carneiro estivesse se referindo a Zumbi, pois a fonte referenciado em sua obra é "O Brasil Holandês", de Gaspar Barléu, publicada em 1647.
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O livro de Barléu, portanto, foi publicado 8 anos antes do nascimento de Zumbi, em 1655. Quando a obra de Barléu - que serviu de fonte para Carneiro, que, por sua vez, serviu de fonte para Narloch e Ventura Santos - foi publicada, Zumbi ainda nem havia nascido.
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Mas há ainda outra questão: não há evidências historiográficas adicionais que corroborem a narrativa do livro de Barléu sobre a existência de escravidão no próprio Quilombo dos Palmares.
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Tampouco há razão para se supor que colonizadores e escravizadores do século XVII que serviram de fonte para o relato de Barléu não inventaram boatos para desqualificar os quilombos que combatiam.
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É improvável que esses relatos sobre o sistema organizacional de Palmares tenham sido feitos de forma acurada, isentos de exageros, imprecisões ou leituras equivocadas, não sendo razoável descartar o óbvio conflito de interesses de tais narrativas.
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Pode-se afirmar, portanto, que Barléu não falava sobre Zumbi, e mesmo seu relato sobre o Quilombo dos Palmares - que ele não conhecia pessoalmente - não pode ser admitido como verdade absoluta, pois não é consubstanciado por outras evidências e fontes independentes.
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Narloch e Ventura Santos cometeram erros crassos de anacronismo, repetindo concepções equivocadas e já corrigidas pela historiografia ulterior. Não existem quaisquer fontes primárias que afirmem que Zumbi tinha escravos.
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E as poucas fontes primárias que alegam que havia escravidão em Palmares são derivadas de relatos "en passant" de impressões de colonizadores e escravizadores que não conheciam a estrutura social e política do quilombo e, mais do que isso, que tinham interesse em destruí-lo.
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É, literalmente, contar a história tomando como fatos impressões sem lastro documental fornecidas pelos "vencedores".
Não existe um conceito específico para identificar o sistema político-social do Quilombo dos Palmares.
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Não existe um conceito específico para identificar o sistema político-social do Quilombo dos Palmares.
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As referências existentes apontam para um sistema em que não havia propriedade, posse, dinheiro e classes sociais, mas marcado por uma estrutura hierárquica rígida e militarizada - que pode ter sido interpretada como um regime de servidão pelos colonizadores.
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Mas, à luz do conhecimento que temos hoje, interpretar a estrutura social de um quilombo como semelhante a de um engenho com senhores e escravos é invencionice.
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O que as fontes primárias existentes permitem afirmar sobre Zumbi é que era o líder do exército do Quilombo dos Palmares e homem de confiança de Ganga Zumba. Para todo o resto, faltam dados históricos, fontes e referências sólidas.
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A lenda de Zumbi escravagista é apenas isso - uma lenda, uma especulação anacrônica e uma manifestação anti-histórica típica da era da pós-verdade, onde pululam teorias absurdas sobre Terra plana, vacinas que causam autismo e a negação da ciência.
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Serve a uma agenda politica e ideológica específica - uma agenda de negação da contribuição negra, de desconstrução das referências antirracistas e de negação da história.
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