Pensar a História
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@historia_pensar

25 Tweets 151 reads Feb 01, 2023
Cabeça de um Oni (Rei de Ifé), esculpida em bronze e liga de cobre pelo povo Yorubá entre os séculos XII e XV. Escavada na Nigéria em 1938 e conservada no Museu Britânico desde 1939, a obra se destaca entre os mais sublimes exemplares da escultura africana.
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A peça integra um conjunto de 18 cabeças de bronze, descobertas durante as obras de construção de um conjunto residencial em Ifé, no estado de Osun, sudoeste da Nigéria. Foi o 2º grande achado arqueológico dessas peças, precedido pelas escavações de Leo Frobenius em 1910.
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No passado, alguns historiadores associavam a cabeça a uma representação de Odudua — divindade primordial a quem se atribui a responsabilidade pela fundação de Ifé, principal centro religioso do povo Yorubá.
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Não obstante, a literatura contemporânea tende a considerar a obra uma representação de um Oni, isso é, um governante de Ifé. Tal hipótese se assenta nas comparações estilísticas com esculturas identificadas do Rei Obalufon.
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O esmerado toucado de contas, decorado com uma crista com roseta e assemelhado a uma coroa, também milita em favor dessa identificação.
Na religião Yorubá, Ifé é o lugar onde a vida e a civilização tiveram início.
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É a pátria lendária e o centro espiritual, que serve de lar para as divindades. Ifé é regida por governante sagrado — o Oni, considerado um descendente de Odudua, o 401º orixá. Historicamente, Ifé se desenvolveu como uma cidade-estado no início da Era Comum.
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Por volta do ano 800 d.C., a cidade já se destacava como um dos mais importantes centros econômicos, políticos e religiosos da Bacia do Níger.
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Situada na encruzilhada das mais lucrativas rotas comerciais que conectavam os entrepostos litorâneos, os povoados da Bacia do Níger e os reinos da Savana e do Saara, Ifé prosperou enormemente, convertendo-se em umas das mais opulentas cidades da África Ocidental.
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Durante a Baixa Idade Média, os governantes de Ifé se ocuparam em promover a arte, o artesanato, a tecelagem e as técnicas de fundição de metais. Entre 1100 e 1500, Ifé se distinguiu como um relevante centro artístico.
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A cidade era repleta de ateliês e oficinas, onde eram produzidas esculturas em terracota, pedra, bronze, latão e cobre, destacadas pelo alto grau de sofisticação técnica e pelo refinamento estético e artístico.
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Eram esculturas com representações humanas, marcadas por um influxo naturalista extraordinário, antecipando uma modelagem realista que somente encontraria paralelo na Europa a partir do Alto Renascimento.
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As mais antigas cabeças de bronze de Ifé têm aproximadamente 1.000 anos de idade e já se destacavam pela técnica avançada.
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Essas peças eram fundidas utilizando o método da cera perdida — isso é, uso de moldes criados a partir de originais esculpidos em cera, que eram então derretidos e substituídos por metal em estado líquido. As cabeças têm tamanho natural (aproximadamente 35 cm de altura).
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A fisionomia transmite serenidade e altivez, realçadas pelo equilíbrio, proporção e senso de anatomia perfeitos. As faces apresentam padrões de incisões estriadas, aludindo a escarificações.
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Algumas cabeças são esculpidas portando toucados e diademas, evidenciando delicados padrões de contas finamente trançadas.
O esmero das representações e a presença das coroas sugerem que as cabeças de Ifé representam os Onis e seus assistentes.
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Além de evocarem a memória dos reis falecidos, homenageando-os em ambientes palacianos, as cabeças também tinham funções ritualísticas. Um grande número dessas peças foram escavadas em bosques nos arredores de santuários.
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Especula-se que as cabeças eram enterradas no solo, junto a árvores de grande porte consagradas a uma divindade ou governante sagrado, sendo desenterradas ulteriormente para uso como oferenda em cerimônias religiosas.
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As primeiras cabeças de de Ifé foram escavadas em 1910 por um arqueólogo alemão chamado Leo Frobenius, que ficou admirado com a sofisticação artística e o alto nível técnico empregado na execução das peças.
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Exemplares das cabeças foram levados para a Europa em 1911, ocasião em que foram comparados com as antigas estátuas greco-romanas.
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Como a descoberta desafiava a concepção eurocêntrica a respeito da arte africana à época, Frobenius lançou a hipótese de que as esculturas teriam sido feitas por uma colônia desconhecida de gregos na África — chegando a relacionar essa hipótese com o mito de Atlântida.
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A especulação foi completamente descartada após a descoberta de outros exemplares da estatuária Yorubá com traços estilísticos compatíveis aos das cabeças de Ifé em sítios arqueológicos nigerianos.
Novos exemplares das cabeças de bronze foram descobertos em 1938 e 1959.
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Parte substancial desses achados foram exportados para museus e coleções particulares da Europa e dos Estados Unidos. Visando interromper a transferência desse patrimônio arqueológico, o governo da Nigéria criou leis limitando a exportação de antiguidades.
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A maioria das peças escavadas após os anos 60 está conservada no Museu Nacional de Ifé, mas alguns dos exemplares mais significativos permanecem em coleções estrangeiras — nomeadamente, a cabeça do Museu Britânico, que inspirou o logotipo dos Jogos Pan-Africanos de 1973.
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A cabeça de Ifé do Museu Britânico também serviu de inspiração para a confecção do Monumento a Zumbi dos Palmares, inaugurado no Rio de Janeiro em 1986. A obra foi idealizada por Darcy Ribeiro e elaborada pelo arquiteto João Filgueiras Lima.
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Em resposta ao movimento em prol da repatriação dos artefatos arqueológicos, o Metropolitan Museum de Nova York devolveu à Nigéria no ano passado três obras saqueadas durante a colonização. Uma das peças era justamente uma cabeça de Ifé.
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