Militares sublevados se reúnem no quartel do 3º Regimento de Infantaria, no Rio de Janeiro. Há 87 anos, em 23/11/1935, tinha início o Levante Comunista — insurreição que visava deter o avanço do integralismo e a escalada repressiva do governo Vargas. 1/30
Organizado pela Aliança Nacional Libertadora (ANL) e apoiado pelo Partido Comunista do Brasil (antigo PCB), o levante logrou a instalação de um governo revolucionário em Natal e fomentou focos insurrecionais no Recife e no Rio de Janeiro, mas foi debelado em poucos dias. 2/30
Passados 4 anos desde a ascensão de Getúlio Vargas à presidência, a insatisfação persistia junto aos setores médios. Vargas havia promovido iniciativas de modernização da estrutura produtiva, em paralelo com a centralização política,... 3/30
...mas os preços no mercado interno seguiam elevados e as exportações continuavam em queda. Sem conseguir mitigar os conflitos de classe, o governo testemunhou a radicalização do movimento operário e a expansão das ideias anarquistas, socialistas e comunistas. 4/30
Reagindo à expansão da esquerda radical, a burguesia insuflou movimentos de cariz fascista — nomeadamente a Ação Integralista Brasileira (AIB). Financiada por banqueiros e industriais, a AIB cresceu rapidamente, apoiando-se no discurso chauvinista e no moralismo cristão 5/30
No ápice, o movimento integralista chegou a agregar mais de um milhão de filiados. Visando neutralizar o avanço do integralismo, o PCB aderiu à politica de frentes populares, adotado pela Internacional Comunista (Comintern). 6/30
Assim, lideranças do PCB ajudaram a fundar a Aliança Nacional Libertadora (ANL), movimento antifascista que congregava comunistas, socialistas, anarquistas e um grande número de militares do movimento tenentista, que havia conduzido uma série de insurreições nos anos 20. 7/30
Sob a liderança de Luís Carlos Prestes, os tenentistas haviam constituído a Coluna Prestes, maior movimento guerrilheiro do país até então. Radicado em Moscou, Prestes havia sido integrado aos quadros do PCB por determinação do Partido Comunista da União Soviética. 8/30
Prestes foi incumbido pelo Comintern de articular o movimento revolucionário no Brasil. Retornou ao país em maio de 1935, acompanhado da militante Olga Benário, com quem se envolveria afetivamente. O Comintern também mobilizou um grupo de agentes para apoiá-los na missão. 9/30
Após retornar ao Brasil, Prestes assumiu o cargo de presidente de honra da ANL. A organização estava em franco crescimento, atraindo trabalhadores com o discurso em prol da reforma agrária, nacionalização das empresas estrangeiras e anulação das execuções hipotecárias. 10/30
Os comícios da ANL atraíam dezenas de milhares de pessoas. Após a publicação de um manifesto conclamando os filiados da ANL a se empenharem na derrubada de Vargas e na concretização da revolução, o governo recorreu à Lei de Segurança Nacional para banir a organização. 11/30
Com a ANL relegada à clandestinidade, o PCB decidiu agir, iniciando a preparação da insurreição. Prestes acreditava que a ANL possuía capilaridade suficiente para se converter em um movimento de massas e sustentar um processo revolucionário. 12/30
O plano consistia em incitar levantes nos quartéis e mobilizar a população civil nos centros urbanos. Com apoio dos militares, da classe operária, da burguesia progressista e assistência externa do Comintern, os sublevados pretendiam provocar a queda do governo central. 13/30
A tese não era consensual e alguns dirigentes do PCB — incluindo Antônio Bonfim — a consideravam improvável. Prestes, entretanto, conseguiu isolar a oposição interna e convenceu o Comintern a apoiar a ação. 14/30
A insurreição estava prevista para começar simultaneamente em todo o país no fim de dezembro, mas os militares vinculados à seção norte-rio-grandense da ANL se anteciparam, obrigando os dirigentes do PCB a adiantarem os planos e improvisarem ações. 15/30
O Levante Comunista teve início em Natal, em 23/11/1935, quando soldados do 21º Batalhão de Caçadores, liderados por Lauro Cortez, prenderam seus oficiais e se apoderaram do arsenal. Em seguida, distribuíram armas aos civis e tomaram os quartéis da cidade. 16/30
Os rebeldes chegaram a derrubar o governador do Rio Grande do Norte, Rafael Fernandes Gurjão, e a dissolver a Assembleia Legislativa, instalando em Natal o único governo revolucionário de inspiração socialista da história do Brasil. 17/30
O novo governo ordenou a expropriação dos bancos e a distribuição de alimentos ao povo faminto. Em seguida, os revolucionários avançaram para o interior, tomando os municípios de Ceará-Mirim, Baixa Verde, São José do Mipibu, Santa Cruz e Canguarentana. 18/30
Em Serra do Doutor, os rebeldes encontraram resistência dos jagunços de Dinarte Mariz, enquanto tropas do exército vindas da Paraíba e do Ceará os forçaram a recuar até Natal. Os revolucionários resistiram por quatro dias, até serem derrotados em 27 de novembro. 19/30
O 2º levante teve início em Recife, Pernambuco, em 24/11, quando Lamartine Coutinho e Roberto Besouchet comandaram as rebeliões no 29º Batalhão de Caçadores e no quartel-general da 7ª Região. A esses, juntaram-se grupos de civis armados comandados por Gregório Bezerra. 20/30
Após as investidas em Recife, os comunistas chegaram a tomar Olinda e houve focos de insurreição em Limoeiro, Garanhuns e Paudalho. Os combates se estenderam por 4 dias, mas os revolucionários foram finalmente subjugados pelas tropas vindas de Alagoas e Paraíba. 21/30
O 3º e último levante ocorreu no RJ, em 27/11, tendo sido deflagrado simultaneamente nas instalações militares da Praia Vermelha, no Batalhão de Comunicações e na Escola de Aviação. A insurreição no Rio foi comandada por Agildo Barata e Francisco Antônio Leivas Otero. 22/30
Após aprisionarem o coronel Afonso Ferreira, os revolucionários conseguiram dominar o 3º Regimento de Infantaria, mas ficaram sob fogo cerrado dos soldados da 1ª Região Militar, cujos ataques reduziram a edificação a escombros. Com a rendição, o levante foi encerrado. 23/30
Debelado o Levante Comunista de 1935, a polícia política de Vargas, chefiada por Filinto Müller, instituiu uma violenta repressão. Mais de 10 mil pessoas foram presas. Com a perseguição, tortura e assassinato de centenas de militantes, o PCB foi desarticulado. 24/30
Prestes permaneceu encarcerado por 9 anos e sua esposa, Olga Benário, mesmo estando grávida foi deportada para Alemanha nazista, onde foi executada na câmara de gás. A repressão não se limitou aos comunistas, estendendo-se a todos opositores de Vargas. 25/30
O Levante Comunista foi submetido a uma intensa campanha de desmoralização, recebendo a denominação pejorativa de "Intentona Comunista". Visando vilanizar os revolucionários, o oficialato militar e a imprensa forjaram uma série de acusações de práticas cruéis e desumanas 26/30
Em resposta à insurreição, o alto comando militar iniciou um processo de expurgo de "influências exógenas" nas Forças Armadas e instituiu uma inflamada retórica anticomunista que perdura até hoje. Um monumento às "Vítimas da Intentona Comunista" foi erguido no Rio em 1940. 27/30
São vários fatores que explicam o insucesso do levante. Os dirigentes do PCB superestimaram sua capacidade de cooptar o apoio das massas. Os comunistas também foram traídos por Johann de Graaf, agente-duplo britânico a serviço do MI6, infiltrado entre os revolucionários. 28/30
Os erros de condução, entretanto, não diminuem a importância histórica e simbólica do levante. Pela 1ª vez, os comunistas expressaram de forma inequívoca o programa de emancipação do proletariado e conheceram os limites para concretização dos anseios revolucionários. 29/30
A principal lição, como observou Pedro Pomar, é compreender que a revolução deve ser obra das próprias massas, "de sua iniciativa, de sua unidade, de seus sacrifícios, de suas ações combativas, de uma orientação justa". 30/30