Pensar a História
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@historia_pensar

25 Tweets Feb 01, 2023
Há 108 anos, em 5/12/1914, nascia a arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi. Radicada no Brasil após a Segunda Guerra Mundial, Lina concebeu alguns dos mais icônicos exemplares da arquitetura brasileira do século XX, sob forte influência do brutalismo e do racionalismo.
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Nascida em Roma, Lina se formou em arquitetura nos anos 30, mudando-se em seguida para Milão, onde trabalhou no escritório do célebre arquiteto Gio Ponti, fundador da revista Domus. Logo após abrir sua firma, testemunhou a eclosão da Segunda Guerra Mundial.
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Em 1943, perdeu seu escritório, destruído em um bombardeio, e foi pressionada pelos ocupantes alemães a suspender a circulação da revista Domus, da qual havia se tornado diretora. Aderiu à resistência antifascista, colaborando com o Partido Comunista Italiano (PCI).
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A recusa em suspender a circulação da revista Domus lhe custou a perseguição das autoridades alemãs. Após o término do conflito, Lina, já casada com o crítico de arte e marchand Pietro Maria Bardi, veio para o Brasil.
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Pietro fora convidado por Assis Chateaubriand para fundar e dirigir o MASP. O casal planejava ficar à frente do projeto por um ano, mas, vislumbrando as possibilidades em um novo país e as dificuldades em uma Itália arrasada pela guerra, decidiram permanecer no Brasil.
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Lina teve dificuldade em se integrar aos círculos intelectuais brasileiros. Os vínculos com Chateaubriand e, sobretudo, o fato de que Pietro fora filiado ao Partido Fascista italiano no passado contribuíram para que a classe artística a enxergasse com reserva e desconfiança
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Ao mesmo tempo, a arquiteta mantinha uma postura ambivalente em relação à burguesia paulistana. "Tenho horror em projetar casas para madames, onde entra aquela conversa insípida em torno da discussão de como vai ser a piscina, as cortinas", declarou em certa ocasião.
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As suspeitas eclipsariam diante das fartas contribuições de Lina à arquitetura nacional — destacando-se ainda por ajudar a inserir mulheres em uma área quase exclusivamente dominada por homens e tornar-se a primeira arquiteta brasileira consagrada com o Leão de Ouro.
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Seu projeto mais célebre foi a sede do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Lina havia sido convidada a projetar a nova sede do museu em um terreno da Avenida Paulista que fora doado à prefeitura pelo urbanista Joaquim Eugênio de Lima no começo do século XX.
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O doador havia condicionado a cessão do terreno à manutenção da vista para o centro da cidade, descortinada pelo mirante sobre a a Avenida Nove de Julho. Assim, qualquer construção no terreno teria de ser suspensa ou subterrânea.
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Lina optou pela junção das duas possibilidades, concebendo um pavilhão elevado, suspenso a 8 metros do chão por quatro enormes colunas, e um edifício semienterrado com três pavimentos. Entre os dois blocos, estendia-se um vão livre de 74 metros, à época o maior do mundo.
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O projeto era tão arrojado que necessitou da aplicação de uma nova patente de concreto protendido, desenvolvida por José Carlos de Figueiredo Ferraz.
Lina não cobrou honorários pelo projeto. Enxergava o MASP como uma missão, um legado para a sociedade brasileira.
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Lina pretendia que o MASP fosse um novo modelo de museu, não mais como "um túmulo para múmias ilustres" ou um "depósito de obras humanas", e sim como um centro dinâmico, multidisciplinar, oferecendo exposições, filmes, oficinas, espetáculos de teatro, música e dança.
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Um espaço condigno ao rico acervo repleto de Picassos, Van Goghs e Portinaris, mas que não estivesse subordinado à autoafirmação do poder financeiro da elite, e sim a um projeto de educação artística para as massas, de permitir ao povo conhecer os grandes mestres da arte.
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A arquiteta buscou se desfazer do caráter intimidador das construções palacianas e do esnobismo cultural, aliando funcionalidade à estética popular, evocando um sentido de coletividade. A construção é aberta aos transeuntes, sem cercas, portões, muros separando-a da cidade
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O edifício possui acabamento simples, com concreto aparente e borracha industrial de chão de fábrica. Há espelhos d'água e canteiros com plantas cercando a praça de paralelepípedos do vão livre, aludindo à tradição cultural ibero-americana.
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Lina inovou nos cavaletes de vidro que criou como suportes para as pinturas. Eles trazem etiquetas identificando o autor na parte de trás, estimulando o visitante a apreciar a obra por seu valor artístico, sem vincular o interesse ao fato do autor ser mais ou menos famoso
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A tentativa de abolir o ambiente elitizado dos museus em favor de uma concepção mais popular enfrentou críticas de parte da imprensa, mas o MASP agradou o gosto popular, integrando-se de forma plena à paisagem paulistana e convertendo-se em um ícone da cidade.
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A arquiteta viu-se envolvida em disputas sobre o perfil da instituição, buscando atenuar as concepções museológicas mais conservadoras de seu marido, o diretor Pietro. Após o golpe militar de 1964, as divergências conceituais ficaram mais explícitas.
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Enquanto Pietro tentava se aproximar de empresários e da cúpula do regime em busca de recursos para o museu, Lina se vinculava aos movimentos artísticos de oposição à ditadura e expressões contestadoras da cena cultural brasileira.
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Colaborou com o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, projetando a cenografia da peça "Na Selva das Cidades", de Bertolt Brecht, em que aparecia o 1º nu frontal feminino do teatro brasileiro.
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As tensões se agravaram quando Lina passou a apoiar os movimentos de luta armada contra a ditadura militar durante os "Anos de Chumbo". Lina chegou a dar guarida para o revolucionário Carlos Marighella, escondendo-o no canteiro do MASP enquanto os militares o procuravam.
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Também sediou na sua casa reuniões da ALN, grupo guerrilheiro fundado por Marighella. As autoridades chegaram a requisitar sua prisão, acusando-a de manter ligações com "grupos terroristas". Lina se exilou na Itália e só retornou ao Brasil após ser absolvida no processo.
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Lina dirigiu o Museu de Arte Moderna da Bahia e coordenou a restauração do Solar do Unhão, da Casa do Benin e do Teatro Castro Alves em Salvador. Ajudou a elaborar o projeto de restauração do centro histórico de Salvador, tombado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
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Em São Paulo, projetou também o SESC Pompeia e elaborou a reforma do Teatro Oficina. Manteve importante atividade cultural até o fim da vida. Faleceu em 20/03/1992, deixando inacabado o projeto de reforma do Palácio das Indústrias, então sede da Prefeitura de São Paulo.
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