Pensar a História
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@historia_pensar

25 Tweets Feb 01, 2023
Há 94 anos, em 6/12/1928, o exército colombiano abria fogo contra os grevistas da United Fruit Company, cedendo à pressão dos EUA. O chamado Massacre das Bananeiras é uma das mais sangrentas chacinas de trabalhadores da história, resultando na morte de mais de 2 mil pessoas
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Entre o fim do século XIX e o início do século XX, a Colômbia se tornou um dos maiores produtores de bananas do mundo. A produção em larga escala, concentrada na região nordeste do país, era monopólio da multinacional estadunidense United Fruit Company (UFC).
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A empresa respondia por 80% do comércio internacional de bananas e detinha mais de 1,3 milhão de hectares de terras, espalhados pela América Central e Caribe. Também controlava parte substancial das redes ferroviárias, dos portos e sistemas de comunicação da região.
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Tão massivo era o poderio da UFC que os EUA incorporaram os interesses da empresa aos objetivos estratégicos de sua política externa, chegando a conduzir intervenções militares na América Central para proteger os lucros da companhia — as chamadas "Guerras das Bananas".
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Visando maximizar seus ganhos, a UFC instituiu uma política agressiva de precarização do trabalho. Ao invés de contratar os trabalhadores diretamente, a empresa utilizava empreiteiros colombianos para arregimentar mão de obra, burlando dessa forma a legislação trabalhista.
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Os trabalhadores viviam em acampamentos insalubres, superlotados, sem ventilação, água corrente ou banheiros. Os empreiteiros, por sua vez, criaram um sistema de vouchers que resultava em descontos de até 30% nos salários dos empregados.
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Também costumavam romper os acordos de trabalho quando metade da meta de hectares era atingida, pagando apenas 40% do acordado. Quando levavam calote, os trabalhadores não tinham a quem recorrer.
O monopólio da UFC também prejudicava os pequenos agricultores da região.
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Sem conseguir competir com a UFC e prejudicados pela especulação fundiária, os produtores autônomos perdiam suas terras e eram forçados cada vez mais à proletarização. O descontentamento levou os trabalhadores a se organizarem para reivindicar melhores condições de trabalho
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Em 1918, ferroviários e estivadores realizaram a 1ª greve na região. Outras paralisações ocorreriam na década de 20, com participação cada vez maior de organizações sindicais e associações operárias.
Em 1927, um desastre natural serviria de catalisador à agitação social.
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Um furacão arrasou as plantações de banana da região, causando enormes prejuízos à população. Os pequenos produtores pediram empréstimos à United Fruit Company para reconstruir suas propriedades, mas foram ignorados. Também foram negligenciados pelo governo colombiano.
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Enfurecidos com o descaso, agricultores passaram a exigir a nacionalização das ferrovias da UFC. Representantes do Partido Socialista Revolucionário (embrião do futuro Partido Comunista Colombiano) visitaram a região para auxiliar na articulação política dos trabalhadores.
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Em outubro de 1928, os trabalhadores aprovaram a lista de reivindicações, encaminhada à UFC: jornada de 8 horas, folga semanal, reconhecimento do vínculo empregatício, reajuste de 50%, abolição dos vouchers, instalações higiênicas, indenização por acidentes de trabalho.
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Alegando não ter responsabilidade pelas demandas dos trabalhadores terceirizados, a United Fruit Company se negou a negociar. Assim, no mês seguinte, cerca de 30 mil trabalhadores cruzaram os braços, paralisando totalmente a produção.
13/25
A greve recebeu apoio do Partido Socialista Revolucionário e de parte do Partido Liberal — bem como do "Diario de Cordoba", editado por Julio Charris. Os trabalhadores articularam uma rede de apoio mútuo, visando garantir a alimentação das famílias dos grevistas.
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Trabalhadores realizaram protestos e piquetes, todos brutalmente reprimidos pela polícia. Incapaz de intimidar os grevistas, a UFC resolveu apelar para o governo. Em 12/11, o gerente da empresa enviou um telegrama ao presidente, exigindo providências para encerrar o motim.
15/25
O governo enviou 3 batalhões do exército para a região. Centenas de grevistas foram presos, mas os trabalhadores se mantiveram firmes na paralisação. Para neutralizar a ação dos "fura-greves", começaram a destruir as colheitas e a bloquear as linhas ferroviárias.
16/25
A UFC recorreu à Casa Branca, descrevendo a greve como uma "conspiração comunista" de "tendências subversivas". O governo dos EUA reagiu de imediato, pressionando o presidente colombiano, o conservador Miguel Mendéz, a encerrar a greve a qualquer custo,...
17/25
...chegando a ameaçar uma invasão da marinha na Colômbia caso os interesses da United Fruit Company não fossem protegidos. Após o decreto de lei marcial na província, Mendéz autorizou o general Carlos Cortés Vargas a conduzir a investida militar contra os grevistas.
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O massacre foi autorizado e supervisionado diretamente por Frank Billings Kellogg, Secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que, ironicamente, ganharia o Prêmio Nobel da Paz no ano seguinte.
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Em 6/12/1928, após a missa de domingo, milhares de trabalhadores se concentraram na praça central da cidade para aguardar um pronunciamento do governador. Enquanto aguardavam, as tropas do exército fecharam as ruas de acesso à praça e ordenaram a evacuação do local.
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Após 5 minutos, os militares abriram fogo contra os trabalhadores e suas famílias.
Em seu relatório, Vargas contabilizou 47 mortes, mas a cifra foi desmentida pela própria embaixada dos EUA, que relatou em telegrama a Kellogg que o nº de mortos "passou de mil".
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Estima-se que mais de 2.000 pessoas foram assassinadas. A repressão aos trabalhadores prosseguiu nas semanas seguintes, resultando em outras milhares de mortes.
O massacre causou consternação nos trabalhadores e teve impacto negativo na imagem do Partido Conservador.
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Após mais de 50 anos no governo, os conservadores foram derrotados no pleito de 1930, quando teve início um interregno de hegemonia liberal. Jorge Eliécer Gaitán, deputado do Partido Liberal, projetou-se nacionalmente ao denunciar o massacre perpetrado pelos conservadores.
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Candidato favorito à presidência da república, Gaitán foi assassinado em 1948. Sua morte deu origem a uma onda de revoltas populares intitulada "Bogotazo", seguida por um período de graves conflitos civis e forte repressão estatal denominado "La Violencia".
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Esse processo, por sua vez, desencadearia na radicalização da esquerda colombiana e na fundação dos grupos guerrilheiros surgidos nos anos 60, tais como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o Exército Popular de Libertação e o Movimento 19 de Abril.
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