Pensar a História
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@historia_pensar

26 Tweets Feb 01, 2023
Há 73 anos, em 21/12/1949, nascia o revolucionário marxista Thomas Sankara. Alçado ao posto de presidente de Burquina Fasso pela Revolução de 1983, Sankara conduziu uma das mais bem sucedidas experiências socialistas do continente africano, até seu assassinato em 1987.
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Thomas Sankara nasceu em Yako, antiga colônia francesa de Alto Volta, 3º dos 12 filhos de Marguerite e Sambo Sankara. Após cursar o primário em Gaoua, ingressou um liceu de Bobo-Diulasso. Os pais o pressionaram a seguir a carreira eclesiástica, mas ele optou pelo exército.
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Sankara ingressou aos 17 anos na Academia Militar de Kadiogo, em Ouagadougou. Sob a orientação de um tutor marxista, teve seu primeiro contato com leituras acerca do imperialismo, neocolonialismo, socialismo e movimentos autonomistas africanos.
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Em 1970, realizou um curso suplementar na Escola Militar Interafricana de Antsirabe, em Madagascar, onde estudou economia, sociologia, agricultura e ciências políticas, e testemunhou a eclosão de um levante popular que derrubaria o governo de Philibert Tsiranana.
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De volta ao seu país, Sankara se consagraria ao participar de uma disputa territorial travada entre Alto Volta e Mali. Ao subjugar uma guarnição inimiga, foi reconhecido como herói de guerra — título que rejeitaria, por considerar o conflito "uma guerra inútil e injusta".
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Encerrado o conflito, Sankara se tornou comandante de uma unidade militar na cidade de Pô. Nessa função, foi responsável por empregar os militares na prestação de serviços às comunidades carentes e no auxílio aos pequenos agricultores, prejudicados por uma severa seca.
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Durante uma viagem ao Marrocos, conheceu Blaise Compaoré, que então compartilhava de sua percepção acerca das mudanças políticas necessárias no Alto Volta. Em seguida, Sankara fundou uma organização militar secreta intitulada "Agrupamento de Oficiais Comunistas".
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Em 1980, Sankara participou do movimento que derrubou Sangoulé Lamizana e levou Saye Zerbo ao poder. Nomeado Ministro da Informação, Sankara instituiu uma gestão que o colocaria em atrito com o novo governo, ao permitir a publicação de denúncias de corrupção contra Zerbo.
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Indignado com o aumento da repressão e com a perseguição aos dirigentes sindicais, Sankara rompeu com o governo. Em 1982, ajudou a destituir Zerbo e a empossar Jean-Baptiste Ouédraogo na presidência. Foi então nomeado primeiro-ministro do Conselho para a Salvação do Povo.
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As críticas enérgicas de Sankara ao imperialismo e aos "inimigos do povo" desagradaram a ala conservadora do governo. Em 1983, durante uma visita de emissários do governo francês, Sankara foi exonerado e preso. Sua prisão, entretanto, ensejou uma forte reação popular.
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Militares, estudantes e trabalhadores organizaram protestos exigindo sua libertação. A insatisfação se converteu em uma crise política, culminando na Revolução de 1983, liderada por Blaise Compaoré. Ouédraogo foi deposto e Sankara, libertado, foi conduzido à presidência.
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Fundamentado em princípios socialistas e anti-imperialistas, seu governo operou profundas transformações sociais. Sankara rebatizou o país como Burquina Fasso ("Terra dos Incorruptíveis"), abandonando a antiga denominação colonial francesa.
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Instituiu um amplo programa de reforma agrária, nacionalizou os recursos naturais e criou metas para a autossuficiência econômica — sendo imediatamente alvo de uma tentativa de golpe financiada por França, EUA e Costa do Marfim, punida com o fuzilamento dos conspiradores.
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Visando cumprir a meta de garantir "ao menos duas refeições e 10 litros de água por dia para cada habitante", Sankara lançou um programa de obras públicas que visava ampliar a segurança hídrica e alimentar, construindo 250 reservatórios e perfurando 3.000 poços artesianos.
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Os sistemas de educação e saúde foram universalizados. A Campanha Nacional de Alfabetização reduziu o analfabetismo em mais de 60%. Na saúde, Sankara implementou um dos maiores programas de imunização do continente, vacinando mais de 2,5 milhões de crianças,...
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...possibilitando o controle das epidemias de meningite, poliomielite, sarampo e febre amarela.
Buscando blindar a nação contra interferências, Sankara reduziu a dívida externa, recusou as ofertas de ajuda das potências ocidentais e retirou o país do FMI e Banco Mundial.
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A fim de estimular a economia e melhorar a infraestrutura, criou um programa de construção de moradias populares, estradas e ferrovias. Mais de 700 km de linhas ferroviárias foram instaladas e uma ampla rede rodoviária passou a integrar todas as regiões do país.
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No campo das relações externas, Sankara atuou para consolidar a agenda pan-africana e se aproximou das nações socialistas, estabelecendo acordos de cooperação com Líbia, Cuba e URSS, ao mesmo tempo em que criticou o apoio de EUA, França e Israel ao regime do apartheid
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Sankara coordenou uma das mais importantes iniciativas de reflorestamento e combate à desertificação do Sahel, plantando mais de 10 milhões de árvores. Em paralelo, aumentou a produção agrícola do país, tornando-o autossuficiente em produção de alimentos já em 1987.
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Sua gestão foi igualmente revolucionária na pauta da igualdade de gênero. Sankara proibiu a mutilação genital feminina, os casamentos forçados e a poligamia. Nomeou diversas mulheres para cargos no alto escalão e criou programas de incentivo à autonomia feminina.
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Os programas e reformas implementados por Sankara possibilitaram uma redução sem precedentes da miséria e da fome, garantindo forte apoio popular. Não obstante, seu governo também foi prejudicado pelo isolamento diplomático e pelas sanções econômicas impostas pelos EUA.
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Internamente, Sankara teve de lidar com a oposição das elites burquinesas, abrangendo desde latifundiários, indignados com a expropriação de suas terras, até os chefes locais, descontentes com a perda de privilégios, como a arrecadação de tributos e o trabalho forçado.
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Forças oposicionistas passaram a fomentar o golpismo, gerando um ambiente de instabilidade. A conspiração logo obteve respaldo dos serviços secretos da França e dos EUA e o apoio da Costa do Marfim e dos setores reacionários das Forças Armadas burquinesas.
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Em 15/10/1987, Thomas Sankara foi deposto e assassinado junto com 12 pessoas ligadas ao seu governo. O golpe foi organizado por seu antigo aliado, Blaise Compaoré, que assumiu a presidência em seguida. A morte de Sankara encerrou o ciclo de conquistas iniciado em 1983.
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Compaoré reverteu as nacionalizações, reintegrou Burquina Fasso ao FMI e Banco Mundial e desmontou os programas sociais implementados após a revolução. O país se converteu em uma ditadura, que se prolongou por quase 30 anos e permitiu o retorno da fome e da miséria.
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Pra quem gosta de documentários, recomendo "E naquele dia mataram a felicidade", produzido pelo canal RAI da Itália. Tem legendado no YouTube:
youtube.com

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