"Christo Sole" (Cristo, o Sol), mosaico romano do século IV d.C. Localizada em um mausoléu sob a Basílica de São Pedro, em Roma, a obra é uma das mais antigas representações artísticas conhecidas das raízes pré-cristãs do Natal. 1/23
O mosaico mescla a figura do messias cristão, Jesus Cristo, com os atributos do deus romano Sol Invicto. Cristo é representando sendo conduzido pela carruagem solar, uma iconografia tradicionalmente associada à divindade romana. 2/23
Os registros históricos mais antigos das festas decembrinas remontam a 7.000 anos antes da Era Cristã. Várias civilizações antigas celebravam o solstício de inverno - a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que geralmente ocorre por volta do dia 21 de dezembro. 3/23
O motivo das comemorações é que o solstício de inverno marcava o início do descanso dos trabalhos agrícolas nas regiões temperadas, uma espécie de período de "férias". Também servia de prenúncio a melhores condições meteorológicas, graças à aproximação da primavera. 4/23
Povos pré-históricos do hemisfério norte construíram até monumentos megalíticos para registrar a data. Esse é provavelmente o caso de Stonehenge, na Inglaterra. No solstício de inverno, o pôr do sol se alinha perfeitamente ao trilito central do complexo. 5/23
No Antigo Egito, o evento também foi registrado na arquitetura oficial. Na aurora do solstício de inverno, o Sol se alinha perfeitamente com o eixo principal do Templo de Karnak, marcando o ápice do "peret", o período da germinação, prenunciando boas colheitas e fartura. 6/23
No Oriente Médio, os mesopotâmicos organizavam um festival de comemoração do solstício que durava 12 dias. Denominado "Zagmuk", o festival marcava o início do ano novo e referenciava a vitória do deus Marduque, o "Bezerro do Sol", sobre as forças do Caos (ou Tiamate). 7/23
Nórdicos e germânicos celebravam a data com o festival de Yule, que se estendia do solstício de inverno até meados de janeiro. Entre os nórdicos, a data era associada ao mito da Caçada Selvagem de Odin. Para os anglossaxões, aludia à Modranicht, a Noite das Mães. 8/23
Os gregos festejavam o solstício de inverno com grandes festas dedicadas a Poseidon, Deméter e Dioniso. Em Elêusis, ocorria a Haloa, marcada por troca de presentes aludindo à fertilidade. E em Egina, celebrava-se a Poseidonia, um luxuoso festival que durava 16 dias. 9/23
Entre os romanos, o inverno era celebrado durante um grande festival chamado Saturnália, que se iniciava em 17 de dezembro e se estendia por mais de uma semana. 10/23
A Saturnália era um festival em homenagem a Saturno, deus da agricultura, que tinha como ponto alto um grande banquete público. Em seguida, os participantes trocavam presentes, ditos "sigillaria". Ânforas de vinho, velas de cera, estatuetas de terracota, amuletos, etc. 11/23
O último dia da Saturnália era 25 de dezembro, data que correspondia à marcação oficial do solstício de inverno no calendário imperial romano. 12/23
Os romanos associavam o último dia da Saturnália ao nascimento do deus Mitra — uma divindade originária da mitologia indo-ariana, cujo culto se espalhou pelo Império Romano a partir das conquistas de Alexandre, o Grande. 13/23
Mitra era o deus da luz, e, por associação, representava o Sol, que "vencia" o persistente outono e "renascia" no dia 25 de dezembro, para então voltar a brilhar na primavera. 14/23
Associada a Hélio, a personificação do Sol na mitologia grega, a divindade passou a influenciar arquétipos análogos cultuados por outras civilizações. Mitra logo se tornaria o deus oficial do Império Romano tardio, venerado sob o nome de Sol Invicto. 15/23
Um decreto do imperador Aureliano emitido em 274 d.C. oficializou a celebração do nascimento da divindade no dia 25 de dezembro, data que ganhou o nome de "Dies Natalis Solis Invicti" (Aniversário do Sol Invicto). 16/23
Paralelamente a essas tradições culturais e religiosas, expandia-se no Império Romano o cristianismo. Os primeiros cristãos guardavam apenas a Sexta-Feira Santa (crucificação de Jesus) e celebravam a Páscoa (ressurreição de Jesus). 17/23
Além de não ser costume celebrar o nascimento dos ícones cristãos (pois não era o nascimento, mas sim o martírio que os tornava sagrados), o Novo Testamento não continha qualquer referência que permitisse identificar a data em Jesus Cristo teria nascido. 18/23
Para competir com as comemorações romanas de dezembro e instrumentalizá-las para arregimentar novos fieis, os cristãos passaram a tentar associar cristianismo às celebrações do solstício. Sol Invicto passou a ser gradualmente identificado como Jesus. 19/23
No ano 221 d.C., o historiador cristão Sexto Júlio Africano publicou suas Cronografias, registrando que Jesus teria nascido no dia 25 de dezembro, mesma data em que os romanos comemoram o solstício e o aniversário do deus Sol Invicto. 20/23
Os líderes cristãos endossaram a proposta e passaram também a comemorar a data. Quando o Império Romano adotou o cristianismo como religião por decreto de Teodósio I, o Natal passou a ser oficialmente celebrado como o nascimento de Jesus Cristo - e não mais do deus Sol. 21/23
Mas embora os significados originais da data tenham sido substituídos, as celebrações deram continuidade às tradições anteriores, criando uma grande amálgama religiosa que persistiu ao longo dos séculos. 22/23
O banquete e a troca de presentes da Saturnália, por exemplo, são costumes que sobreviveram até os nossos dias. A esses, somou-se o hábito de enfeitar as casas com um pinheiro natalino, uma herança nórdica do festival de Yule. 23/23