Há 17 anos, em 24 de fevereiro de 2006, um bando armado invadia o Museu da Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, e realizava o maior roubo de obras de arte da história do Brasil, subtraindo pinturas de Pablo Picasso, Salvador Dalí, Claude Monet e Henri Matisse. 1/23
O roubo ocorreu em uma sexta-feira de carnaval. A poucos metros do museu, o desfile do Bloco das Carmelitas arrastava uma multidão no bairro carioca de Santa Teresa. Aproveitando-se do evento, quatro homens armados renderam os seguranças, funcionários e visitantes do museu. 2/23
Em seguida, arrancaram as quatro pinturas das paredes, subtraíram um livro raro e fugiram se misturando aos foliões.
A reação ao roubo variou do amadorismo ao desinteresse dos órgãos de segurança, conforme relatado por Cristina Tardáguila em "A arte do descaso". 3/23
Não havia uma delegacia específica para crimes contra o patrimônio cultural, o que fez com que a investigação ficasse a cargo de uma delegacia especializada em crimes ambientais. 4/23
O caso foi arquivado em poucas semanas, para que os agentes pudessem se dedicar à fiscalização do defeso (período de caça proibida). Os visitantes que estavam no museu nunca foram interrogados e as digitais colhidas na cena do crime não foram incluídas no inquérito. 5/23
O comunicado enviado aos aeroportos internacionais do Rio de Janeiro e de São Paulo não relacionava todas as obras, nem trazia descrição ou imagens das peças. 6/23
A polícia suspeitou de dois franceses ativos no Brasil, Patrice Charles Rouge e Michel Cohen (esse último acusado de fraudes e atividades irregulares no mercado de arte), mas não conseguiu localizá-los nem vinculá-los ao roubo. Todas as obras seguem desaparecidas até hoje. 7/23
Duas das obras subtraídas já haviam sido roubadas anteriormente do Museu da Chácara do Céu. Em 1989, ladrões invadiram o museu e levaram as telas de Matisse e Dalí, bem como um valioso conjunto de objetos de prata, mas as peças foram recuperadas posteriormente. 8/23
Avaliadas à época em mais de 50 milhões de reais, as obras roubadas ("A Dança" de Picasso, "Os Dois Balcões" de Dalí, "Marinha" de Monet e "Jardim de Luxemburgo" de Matisse) estavam entre as mais importantes do acervo do museu. Todas eram tombadas pelo patrimônio nacional. 9/23
Pintada por Picasso em 1956, "A Dança" era uma obra característica do período tardio do mestre andaluz, marcado pelo estilo indefinido, releituras e referências a elementos de suas fases anteriores, com ênfase no colorido e na composição de matiz expressionista. 10/23
"A Dança" é uma releitura da célebre pintura homônima de Matisse. A obra foi perfurada durante o roubo e partes da moldura foram encontradas incineradas. Era uma de apenas 5 pinturas de Picasso conservadas em museus brasileiros. As outras estão no MASP e no MAC-USP. 11/23
"Os Dois Balcões", também chamada de "Homem de Compleição Malsã Escutando o Barulho do Mar", foi pintada por por Salvador Dalí em 1929. A obra era oriunda do período mais criativo do artista catalão. 12/23
A tela foi criada para a 1ª mostra individual de Dalí, ao lado de suas maiores obras-primas, como "O Grande Masturbador" e "O Enigma do Desejo". Tinha por tema da "infância complexa" e trazia um autorretrato do pintor na porção duplicada da fachada da casa paterna. 13/23
Trata-se de uma referência à "disputa" psicológica com a identidade do irmão homônimo, falecido antes do nascimento do artista.
Era a única pintura de Salvador Dalí conservada no Brasil. 14/23
"Marinha", pintada por Claude Monet em 1885, pertencia a um ciclo de paisagens litorâneas executadas pelo mestre do impressionismo no último vintênio do século XIX. 15/23
O local retratado é uma falésia de Dieppe, na Alta Normandia. A pintura era uma das únicas três obras de Monet conservadas no Brasil - as outras duas estão no MASP, em São Paulo. Essa mesma obra já havia sido roubada do museu carioca em 1989, e recuperada meses depois. 16/23
Outra pintura de Monet quase idêntica à tela do Rio foi roubada de um museu em Nice, na França, em 1998, e recuperada pela polícia no mesmo ano. Em 2007, essa mesma obra de Nice foi novamente roubada, sendo encontrada no ano seguinte, em Marselha. 17/23
A quarta tela roubada era "O Jardim de Luxemburgo", pintada por Henri Matisse em 1903. Trata-se de uma paisagem parisiense característica da produção pré-fauvista de Matisse. Essa obra também já havia sido roubada da Chácara do Céu em 1989, mas foi recuperada meses depois. 18/23
A tela de Matisse roubada do Rio de Janeiro apareceu alguns dias depois em um site de leilões da Rússia, com um lance inicial de 13 milhões de dólares. A Polícia Federal pediu a colaboração da Interpol, mas não conseguiu identificar o responsável pela oferta. 19/23
A quinta obra roubada era um livro raro: "Toros", uma coletânea de poemas de Pablo Neruda com ilustrações gravadas por Pablo Picasso. 20/23
Inaugurado em 1972, o Museu da Chácara do Céu funciona na antiga residência do empresário e mecenas Raymundo Ottoni de Castro Maya. Junto com o Museu do Açude, no Alto da Boa Vista, compõe os Museus Castro Maya. 21/23
Os museus, fundados como organizações privadas, foram encampados pelo governo federal em 1983, após a severa crise financeira que resultou na insolvência da Fundação Castro Maya. 22/23
Os museus possuem um dos mais importantes acervos artísticos do Brasil, englobando mais de 20 mil peças de artistas como Jean-Baptiste Debret, Candido Portinari, Gustave Courbet, Amedeo Modigliani, Edgar Degas e Joan Miró. 23/23